Pela historiadora Débora Regina Vogt
Cansamos de ouvir sobre o problema da fome no mundo. Muitas vezes, como um discurso dezenas de vezes repetido, soa em nossos ouvidos sem fazer ecos. A Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) se reuniu há alguns dias na Itália a fim de discutir o problema da fome no mundo. O número é alarmante, cerca de 1 bilhão de pessoas sofrem com a falta de alimentos. Segundo relatório da ONU, de cada 10 pessoas, 6,7 não comem os nutrientes que deveriam para sobreviver. Contudo, mesmo que os números saltem aos olhos, poucas vezes eles nos fazem levantar de nossa posição de meros assistentes de uma história que parece se repetir ano após ano diante de nossos olhos. São números. Assim como os mortos na guerra do Afeganistão, na invasão do Iraque, nos conflitos no Oriente Médio ou, para usar um exemplo muito nosso, nas nossas favelas e vilas na guerra do tráfico. A história muda quando transformamos esses números em pessoas, com sentimentos, desejos, anseios, dores e angústias.
O documentário Garapa, de José Padilha, faz-nos olhar a fome com outros olhos. Ela deixa de ser número para se tornar gente. Gente que tem comida, mas a tem numa quantidade tão limitada, que vai morrendo aos poucos, ou sobrevivendo como dá, como consegue, como se adapta. Logo no início da película, em preto e branco, o diretor coloca, “há dois modos de morrer de fome: não comer nada e morrer logo, ou ir comendo sempre o insuficiente e ir morrendo aos poucos”. Padilha explora a segunda situação, que talvez seja a mais dolorosa, do sofrimento contínuo, de abstinência do mínimo necessário à sobrevivência. Se viver é uma eterna capacidade de se adaptar, podemos dizer que os personagens de Garapa (em nada fictícios, diga-se de passagem), entenderam o que isso significa. Na ausência do leite, usa-se a garapa, mistura de água com açúcar quente. Se não há como fazer as três refeições diárias, janta-se e não se almoça ou vice-versa.
Segundo alguns dados, cerca de US$ 30 bilhões investidos por ano acabariam com o problema da fome no mundo. Se isso parece muito para alguns, é interessante compararmos com o gasto com armamentos: US$ 1,5 trilhão. Os cerca de 60 países que se reuniram em Roma e rejeitaram a destinação de US$ 44 bilhões para a erradicação da fome do mundo até 2025 deveriam assistir a Garapa. É fácil votar “não” para números, virar as costas para dados e dar de ombros para estatísticas. Ver a face da fome, de carne e osso, com mais osso do que carne, nos faz senti-la mais próxima. Isso significa tomá-la como nossa, não simplesmente buscando suas causas históricas, como se o sofrimento de milhares precisasse somente ser justificado para ser aliviado. É nosso problema, é nossa vergonha.
Fonte: Zero Hora (02/12)
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